Estamos chegando àquela época do ano em que o excesso de jogos vira a desculpa perfeita para o insucesso em campo. O pior é que essa narrativa cola, desviando o foco do trabalho malfeito, porque a maioria das pessoas acredita nela.
Primeiro, o óbvio: só um clube será campeão. Parece bobagem reforçar isso, mas nossa cultura trata o segundo colocado como o “primeiro dos perdedores”. Essa obsessão gera loucuras administrativas e desvaloriza bons trabalhos.
Nesta semana, por exemplo, Palmeiras, Vasco e Atlético Mineiro entram na fase decisiva de três torneios de uma vez; Flamengo, Fluminense e Grêmio jogam dois. Por pura falta de coragem e planejamento, vão esfolar os mesmos jogadores de sempre, exigindo deles uma performance linear que dificilmente acontecerá.
Os clubes participam de várias competições paralelas porque cobiçam as premiações milionárias dessas copas, mas caem no primeiro paradoxo: querem ganhar mais gastando menos.
Isso se resolveria com um rodízio real de atletas, mas, embora quase todos tenham elencos numerosos, os técnicos e dirigentes preferem esgotar os mesmos porque, se perderem os jogos respeitando um rodízio que daria aos atletas condições de se recuperarem, não terão coragem de enfrentar a ira, injustificada, da torcida.
Consumado o fracasso, o segundo paradoxo entra em cena. A fúria se volta contra a CBF, os sindicatos e a imprensa. Ninguém tem coragem de citar os cartolas ou apontar o dedo para os próprios patrões, os verdadeiros responsáveis.
E assim, o futebol brasileiro caminha e nunca sai do lugar.
Números atuais do calendário do futebol brasileiro
a. 80 jogos em 2025: O Bahia terminou 2025 com 80 partidas oficiais. O Fluminense fez 79 e o Flamengo, 78.
b. Redução de até 15%: A CBF projetou reduzir em até 15% o número de partidas por temporada dos clubes da Série A em 2026.
c. 10 jogos em um mês: O Palmeiras terá dez partidas entre 8 de outubro e 8 de novembro de 2026, entre Brasileiro, Libertadores e Copa do Brasil.
d. Duas maratonas iguais no mesmo ano: O Palmeiras já havia feito outra sequência de dez jogos em cerca de 30 dias, entre agosto e setembro.
e. Três competições simultâneas: Palmeiras, Atlético-MG e Vasco chegaram a outubro disputando Brasileiro, Copa do Brasil e torneios continentais.
f. Futebol quase todos os dias: Entre o fim de outubro e o início de novembro, o calendário nacional se propôs a ter jogos praticamente todos os dias.
g. 41 jogos antes da pausa: Antes da Copa do Mundo, a Chapecoense já tinha 41 partidas; Vitória, 40; Botafogo, 39; Palmeiras e Flamengo, 38.
h. A Copa do Mundo parou o Brasileiro: A Série A foi interrompida durante o Mundial, mas atletas convocados continuaram viajando, treinando e jogando.
i. Campeonato Brasileiro voltou antes da final da Copa: Jogos da 19ª rodada foram marcados para 16 e 17 de julho, antes mesmo da final do Mundial.
j. Data Fifa ampliada: Em 2026, as janelas de setembro e outubro foram reunidas em um período internacional mais longo.
k. Data Fifa não é folga para convocado: Clubes podem parar, mas atletas de seleção continuam acumulando carga competitiva.
l. 52 jogos de um atleta: Marlon Freitas participou de 52 das 56 partidas do Palmeiras até o fim de setembro.
m. Mais de 4.400 minutos: Marlon Freitas ultrapassou 4.400 minutos em campo na temporada.
n. Cerca de 600 baixas médicas: Os 20 clubes da Série A somavam cerca de 600 ocorrências médicas até 1º de outubro de 2026.
o. 41 baixas em um clube: Corinthians e Santos lideravam o levantamento, com 41 ocorrências médicas cada. A Chapecoense tinha 40 ocorrências.
p. 10 atletas no departamento médico ao mesmo tempo: A Chapecoense chegou a ter dez jogadores simultaneamente no departamento médico em três momentos do ano.
q. 8 cirurgias: A Chapecoense registrou oito casos cirúrgicos em 2026, maior número da Série A naquele levantamento.
r. 18 jogos perdidos por lesão: Yuri Alberto já havia perdido 18 partidas oficiais do Corinthians por lesão em 2026.
s. Brasileirão começou em janeiro: A Série A de 2026 foi programada de 28 de janeiro a 2 de dezembro, o que diminuiu o período da pré-temporada, principal período de preparação física que dá base de sustentação para a temporada que está por vir.
t. Flamengo divulga nove fraturas em 2026.
Uma simples análise desse quadro poderia levar a atitudes que culminassem em um cenário mais equilibrado. Mas, no futebol, além de inteligência e coragem, ainda falta solidariedade.
Dessa maneira, marcado por crises financeiras, falta de planejamento e gestões irresponsáveis, o futebol padece.
Apesar da sua enorme força econômica, o esporte sucumbe à incompetência de quem deveria honrá-lo.
Rinaldo Martorelli