<div>Locais usados durante Jogos do Rio não possuem programas esportivos, sofrem com falta de atletas e têm rotina ociosa<br /><br />Arenas modernas e milionárias fechadas, sem receber nenhum atleta por semanas inteiras; outras, repassadas para a iniciativa privada por valores irrisórios; e um condomínio de 17 edifícios sem moradores. Esse é o cenário do Rio seis meses depois da abertura do Pan, evento que consumiu R$ 3,7 bilhões dos cofres públicos. Das seis arenas erguidas para os Jogos, nenhuma conta com um programa esportivo oficial.<br /><br />Construído por R$ 119,8 milhões do governo federal, o Complexo Esportivo de Deodoro é um retrato desolador do fim dos Jogos. Principais obras do complexo, os centros de tiro esportivo e de hipismo estavam desertos na semana passada. Apenas quatro militares tomavam conta do imenso CT de tiro, com dezenas de estandes, iluminação especial, isolamento acústico e climatização. Desde o final dos Jogos, em julho, o centro abrigou apenas parte do Sul-Americano aberto de pentatlo moderno, em novembro, e alguns treinos promovidos pela confederação.<br /><br />O centro de hipismo vive situação semelhante. O local foi palco do Campeonato de Hipismo do Exército, em setembro, e de treinos de militares até agora. O complexo de Deodoro também abrigou partidas de hóquei sobre a grama e provas do pentatlo moderno. Na semana passada, apenas o acanhado estádio de hóquei era utilizado. A amadora seleção brasileira treinava no campo, o único no país com as medidas oficiais.<br /><br />Na Barra, a situação não é diferente. O Parque Aquático Maria Lenk (R$ 84,9 milhões, sendo R$ 60 milhões do governo federal e R$ 24,9 milhões do município) e o velódromo (R$ 11,99 milhões -R$ 9,88 milhões da prefeitura e R$ 2,11 milhões dos cofres federais) também têm rotina preguiçosa.</div><div><br />Administrados pela prefeitura, os locais não têm escolinhas e não abrigam equipes. Em agosto, a Secretaria Municipal de Esporte anunciou que projetos esportivos estariam funcionando nos dois locais no mês seguinte, o que não ocorreu.<br /><br />Nesse período, o parque aquático recebeu o Mundial de nado sincronizado e competições masters, infanto e paraolímpicas. O velódromo só abrigou dois torneios de patinação em velocidade e clínicas.<br /><br />Mais caras obras do Pan, o estádio João Havelange (R$ 380 milhões) e a Arena Multiuso (R$ 125,9 milhões) foram licitados para a iniciativa privada. Time do coração do prefeito Cesar Maia (DEM), o Botafogo ficou com o estádio com capacidade para 45 mil pessoas construído com dinheiro dos cofres municipais. Para isso, o clube vai pagar R$ 36 mil mensais. A concessão durará 20 anos. Pelos valores atuais, o Botafogo desembolsaria R$ 8,6 milhões até o término do período, ou 2,1% do custo da obra.<br /><br />A Arena Multiuso também foi para as mãos de uma empresa particular e agora pertence à GL Events. Pelo acordo, desde outubro, a empresa francesa pagará R$ 269,6 mil mensais ao município, até junho de 2016. Assim como no estádio, o valor do contrato será reajustado anualmente. A GL já tinha vencido a licitação para administrar o Riocentro, em acordo que foi investigado numa CPI na Câmara Municipal do Rio. Nesses seis meses, a arena sediou o Mundial de judô, sob administração da prefeitura, e um show do cantor Roberto Carlos. </div><div><br />Obras destinadas ao Pan ainda não foram concluídas. Perto da Vila, uma série está parada. A duplicação da avenida Ayrton Senna está atrasada. Segundo a prefeitura, deve ficar pronta em março. A construção da Estação de Tratamento de Arroio Fundo, fundamental para a despoluição das lagoas de Jacarepaguá, prossegue em ritmo lento – a obra deveria ter sido inaugurada na última terça.<br /><br />A Rio Águas informou que aguarda os R$ 13 milhões do Ministério do Esporte para retomar as obras. Segundo o ministério, o dinheiro será repassado no prazo de 30 dias.<br /><br /></div><div>Condomínio que abrigou milhares de atletas e foi vendido em tempo recorde, a Vila do Pan está fechada. Os apartamentos deveriam ser entregues neste mês, mas muito terá que ser feito para a prefeitura conceder o ""habite-se". A Vila foi erguida com financiamento da Caixa Econômica Federal, que liberou R$ 232 milhões.</div><div> </div><div><strong>Para dirigentes, gastos valeram o investimento<br /><br /></strong></div><div>Apesar do custo bilionário do Pan, o prefeito do Rio, Cesar Maia (DEM), disse que o evento ""já foi pago".<br /></div><div>"Levando em conta a valorização patrimonial no entorno dos grandes equipamentos, a marca da cidade avaliada pela oferta de grandes eventos, o aumento de receita, a explosiva ocupação da rede hoteleira no Réveillon, posso garantir que já se pagou", disse Maia, que gastou R$ 1,4 bilhão no evento.<br /><br /></div><div>O restante dos R$ 3,7 bilhões gastos no Pan foram cobertos por União (R$ 1,8 bilhão) e governo do Estado (R$ 500 milhões).</div><div><br />Em agosto, a Secretaria Municipal de Esporte havia informado que um projeto da confederação de desportes aquáticos para o parque aquático seria fechado até o final daquele mês e que o velódromo funcionaria após o Parapan, em agosto.<br /></div><div>Djan Madruga, secretário de Alto Rendimento do Ministério do Esporte, disse que a ocupação do Complexo de Deodoro "está bem administrada". <br /><br />"Fazemos pelo menos um evento por mês. Além disso, Vamos fechar acordo com confederações e federações para fazer escolinhas lá", disse Madruga. Segundo o secretário, o governo já liberou R$ 990 mil para administração do complexo até o final de 2008. Em março, o sul-americano e o mundial de tiro esportivo serão disputados no centro.<br /><br />O presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman, defendeu os gastos no Pan. "Os Jogos foram fantásticos e deixaram legados importantes para a cidade e o país." Questionado sobre o futuro das arenas, Nuzman se limitou a dizer:<br /></div><div>"Essa pergunta deve ser feita aos responsáveis por cada instalação". </div><div> </div><div> </div><div>Por Sérgio Rangel</div><div>Folha de S. Paulo, 20/01/2008</div>