1. Tese central
A FENAPAF caiu no conto do vigário e virou massa de manobra política ao se juntar a uma instituição que perdeu sua credibilidade e seu protagonismo.
A Federação Nacional de Atletas Profissionais de Futebol – FENAPAF, órgão de representação nacional dos atletas de futebol, caiu no conto do vigário ao se juntar à FIFPro e você saberá o motivo disso.
O texto não é curto, enxuguei tudo o que pude e fiquei naquilo que é necessário para dar sentido ao contexto, mas asseguro que vale a pena.
Primeiro há de se explicar, para quem não sabe, e relembrar para quem sabe, o que seria o conto do vigário. Explicação da IA: “Conto do vigário é uma expressão popular no Brasil e em Portugal que significa um golpe, trapaça, trambique ou artimanha elaborada para enganar alguém e obter vantagem desonesta. Quem cai no conto do vigário é ludibriado por uma história convincente, mas falsa”.
Dito isso, vamos aos fatos.
2. Contexto institucional: FENAPAF, AIF e FIFPro
Para que se entenda a situação, é necessário todo o contexto histórico. Inicialmente, vou trazer algumas informações que pouca gente sabe.
Há uma representação nacional dos atletas profissionais de futebol, a FENAPAF, que congrega sindicatos estaduais.
Há uma instituição de representação mundial dos atletas de futebol, a AIF, Associação Internacional de Futebolistas, o verdadeiro sindicato mundial com registro oficial em Madri. A AIF, embora conste em seu nome o termo “associação”, é oficialmente um sindicato, pois a legislação espanhola não permite outra forma, e carrega as responsabilidades inerentes à sua atuação.
Há uma outra, que outrora fora a representação internacional, a FIFPro, Federação Internacional de Futebolistas Profissionais, uma associação sem registro oficial como sindicato, informação nova e fundamental para mim, que diz muito a respeito dessa suposta representação.
Vou tratá-la aqui como “outrora instituição”.
Esclarecendo: um sindicato representa uma categoria profissional, a AIF. Uma associação tem sua representação limitada aos seus filiados, a “outrora instituição”.
Diferente de uma associação, um sindicato empenha seus diretores em responsabilidades pessoais: civil, criminal, tributária, etc. Uma associação, nem sempre.
3. Origem da trajetória sindical
Para que o atleta/leitor entenda como a FENAPAF caiu no conto do vigário, preciso voltar no tempo.
Assumi o Sindicato de Atletas SP em 12 de abril de 1993. Minha chapa era composta por Raí e Pintado, do São Paulo FC; Velloso, da SE Palmeiras; Cesar Sampaio, do Santos FC; entre outros.
Em um domingo de outubro de 1996, toca o telefone na minha casa. Era o Raí, de Paris. Ele havia sido transferido para o Paris Saint-Germain e me convidava para um encontro lá na Cidade Luz, que pretendia dar início a uma representação mundial dos futebolistas profissionais, naquele momento encabeçada por Maradona.
Foi minha primeira experiência internacional. Tive contato com vários jogadores e ex-jogadores estrangeiros: Bosman, Di Stefano, Ruud Gullit, Bento e os brasileiros que, naquele momento, jogavam no exterior: Caio Ribeiro, o próprio Raí, Valdo, André Cruz, Sonny Anderson, entre outros.
O tempo passou e a iniciativa não prosperou.
4. Fim do passe e criação da FENAPAF
Paralelamente, trabalhávamos para a extinção do passe aqui no Brasil, que se concretizou na Lei Pelé em 1998, mas deixou de existir mesmo após três anos, em 2001.
Quando ia para Brasília participar das audiências públicas defendendo o fim daquele mecanismo que prendia o jogador ao clube mesmo sem contrato, que nem salário era obrigado a pagar para o atleta trabalhador — foi o que aconteceu comigo na SE Palmeiras —, ouvia de um parlamentar específico que compunha a bancada da bola que “você só vem aqui em nome dos jogadores de São Paulo, não pode representar os jogadores dos demais estados”.
Evidente que aquilo me incomodava.
Quando eu soube — lembre-se, estamos no início dos anos 2000 e as comunicações não eram tão fáceis e efetivas como são hoje — que havia cinco sindicatos de atletas profissionais no país, já conhecia o do RJ, RS e MG, e o de Pernambuco foi o último a surgir naquele momento, fundamos, em 05 de janeiro de 2001, a Federação Nacional de Atletas Profissionais, FENAPAF.
Cinco sindicatos estaduais eram, e é, o número mínimo exigido pela legislação para essa criação.
Agora, a lei nos dava a possibilidade de representar todos os atletas profissionais de futebol do país.
Depois, entre março e abril de 2001, não me lembro com exatidão a data, recebi um e-mail de Antonio Carraça, presidente do Sindicato de Jogadores de Portugal e, naquele momento, integrante do Board da “outrora instituição”, me convidando para integrar aquela entidade.
Em 10 de junho de 2001, agora acompanhado pelo representante do Sindicato do Rio de Janeiro, recebemos no Brasil o Antonio Carraça e oficializamos a integração, não dos sindicatos de SP e RJ, mas da FENAPAF na “outrora instituição”.
Carraça também havia feito contato com os demais sindicatos existentes na América do Sul e, dois dias depois, estávamos em Montevidéu participando de um encontro com os sindicatos do Chile, Uruguai e Argentina, que também passaram a integrar a FIFPro. Peru e México se juntaram a esse bloco pouco tempo depois.
5. Caso Bosman e transformação internacional
No final dos anos 1990 e começo dos anos 2000, a Europa vivia uma grande transformação na relação de trabalho do atleta profissional provocada pela sentença Bosman, decisão publicada em 15 de dezembro de 1995.
Para quem não sabe, Bosman, um jogador belga, foi à Corte da Comunidade Europeia e conseguiu não só sua liberdade contratual, mas a de todos os outros da categoria no velho continente.
O processo durou cinco anos e o resultado não se restringiu à questão da relação de trabalho do jogador. Os órgãos da Comunidade Europeia impuseram à FIFA outras obrigações. Uma delas foi a criação de um “fórum” que pudesse avaliar e julgar processos de atletas que, até aquele momento, quando em terras estrangeiras, não tinham onde buscar os seus direitos quando violados.
Assim nasceu a Câmara de Resolução de Disputas, CRD, da FIFA e, com ela, o Regulamento de Transferências Internacionais, a “lei” que regula as transferências internacionais de jogadores desde então.
A CRD, que foi constituída também por imposição da Comunidade Europeia, é composta de forma paritária: dez membros indicados pelos clubes e federações continentais de futebol e dez representantes dos jogadores, até a última formação, indicados pela “outrora instituição”.
Eu, além de atleta, já havia terminado o curso de Direito e passado no exame da Ordem, portanto também já era advogado. Por isso, fui indicado para representar as Américas — do Sul, Central e do Norte —, num primeiro momento como suplente e, a partir de 2003, como titular.
A minha atuação na CRD da FIFA durou quase quinze anos, coisa que pouca gente sabe, porque sempre me dispus a trabalhar pelos jogadores sem buscar prestígio pessoal por isso.
Depois, também me tornei membro da Comissão do Estatuto do Jogador da FIFA, hoje extinta e incorporada pelo Tribunal do Futebol da FIFA.
6. Atuação internacional e chegada ao Board
Então, o começo efetivo de minha atuação internacional começa em dezembro de 2001, quando participei como representante do Brasil no Congresso da “outrora instituição”, realizado em Paris.
Em 2007, passei a ser o representante nomeado pelos sindicatos americanos na diretoria da “outrora instituição”.
O êxito, resultado do trabalho de pacificação e reorganização sindical nas Américas, foi tão impactante que a “outrora instituição”, então, resolveu criar as suas quatro divisões continentais: Américas, Europa, África e Ásia/Oceania.
Em 2010, me tornei presidente da Divisão Américas, função que desenvolvi até meu desligamento geral da entidade, em agosto de 2016.
Em 2013, a Divisão que presidia lançou minha candidatura para presidente mundial. Fiz o trabalho, apresentei as minhas propostas, mas perdi para o candidato da Europa, cuja única posição era defender que um sul-americano não poderia se tornar presidente da “outrora instituição”.
Mal sabia ele o que viria a acontecer. Hoje a entidade é dirigida por um sul-americano que colabora demasiadamente bem para o descrédito que ela vem adquirindo.
A eleição era feita somente com os votos dos membros do Board. Eram onze membros, sendo sete europeus, ainda que eu tenha tido voto de um dos europeus.
De candidato a presidente, numa acomodação política em face de todo o constrangimento pelo fato do arranjo escancarado e vergonhoso para eleger o francês, virei vice-presidente mundial.
Fui convencido pelo restante do Board e acabei aceitando a vice-presidência por imaginar, naquele momento, que ainda assim poderia desenvolver um trabalho que pudesse mudar realidades, para muito melhor, para os jogadores, não só os de nosso país, mas de todos aqueles cujos governos, motivados por uma mentalidade em que se privilegia o deslumbre pelo futebol e que não possuem a menor capacidade de proteger a relação de trabalho e o próprio esporte, poderiam fazê-lo.
Era em 2013 e continua assim até hoje.
7. Desgaste político e diferença de visão
Enfim, queria trabalhar em questões que os europeus — os que vivem na parte boa da Europa, a parte que comporta os membros que se encontravam no Board — não conheciam, tampouco ainda conhecem.
A própria cultura desses países, antigos, cujos direitos fundamentais são resultado de conflitos históricos que moldaram o respeito ao cidadão, desdenha dos avanços alcançados com muito suor pelos sindicatos de fora desse eixo.
E, sem essa ciência, além de não se importarem verdadeiramente com o que acontece nas relações de trabalho dos jogadores no restante do mundo, menosprezam as conquistas daqueles que trabalharam de verdade em prol da categoria.
As conquistas desses sindicatos, que eles consideram menores, como no nosso próprio caso, foram alcançadas com muito esforço e diretamente pelos próprios dirigentes sindicais, diferente do caso deles, que já pegaram tudo pronto.
Essa situação causava sério desgaste na minha relação dentro da “outrora instituição”.
8. Direitos de imagem, jogos eletrônicos e ruptura
Aliado a isso, alguns jogadores brasileiros processaram as empresas de jogos eletrônicos pelo uso indevido de imagem.
As empresas de jogos eletrônicos são as financiadoras da “outrora instituição”, que lhes dá em troca os direitos de exploração coletiva de imagem dos jogadores. Questão essa que é fruto de negociação entre sindicatos e clubes na Europa, direitos que depois são repassados para que a “outrora instituição”, então, negocie a entrada de recursos.
No nosso caso, como não temos esses direitos coletivos, jamais nos comprometemos a esse repasse.
Assinamos um documento que trazia claramente em seu artigo 2º: “O representante dos jogadores (FENAPAF) empregará todos os esforços para a exploração coletiva de imagens…”, e, no artigo 3º: “…as partes acordam pelo presente contrato que o representante dos jogadores (FENAPAF) se esforçará de forma razoável para obter as licenças de uso de imagem…”.
Não assumir as responsabilidades pelos seus erros e repassar para a FENAPAF foi a tentativa da ocasião.
Como já havia bastante desgaste nas relações pessoais, principalmente com o secretário geral, de forma covarde quiseram imputar a nós a responsabilidade pelo uso indevido da imagem dos jogadores brasileiros. O estremecimento só aumentou. E eu contra-atacava com base na fundamentação jurídica estabelecida nos termos descritos e que faziam parte do documento entre “outrora instituição” e FENAPAF.
Com a soma das questões, a que eu não me rendia ao desdém deles e da falta de interesse em expandir a visão e o trabalho para aqueles que realmente precisavam de mais proteção, e como me neguei a assumir uma responsabilidade que não era do Brasil, o desgaste na relação com o Board ficou insustentável.
Com isso, em agosto de 2016, renunciei a tudo: vice-presidência mundial, presidência da Divisão e Comissões da FIFA.
Eu saí, mas a FENAPAF continuava membro.
Na sequência, e ao me aprofundar na questão do uso indevido da imagem dos jogadores pelas empresas de jogos eletrônicos, conduzi pelo Sindicato de Atletas SP, junto com os sindicatos de Minas Gerais e Santa Catarina, outros processos requerendo a reparação.
Processos cujas sentenças foram favoráveis aos jogadores, mas que ainda se encontram parados na última instância, STJ, em Brasília.
Esse processo, na verdade, foi ajuizado contra a Electronic Arts, mas é a “outrora instituição” a responsável em assumir os custos, caso haja.
Processo que ainda não se encerrou, mas com decisões totalmente favoráveis aos jogadores. Processo que me fez virar “persona non grata” na “outrora instituição”, para dizer o melhor, e inimigo número um, para dizer o pior.
Faço meu trabalho de defesa para os jogadores, não para agradar quem quer que seja, e não me incomodo com o que podem pensar de mim por lá, ainda mais por gente de caráter duvidoso.
9. Afastamento da FENAPAF e decisão judicial
Os desgastes de lá se transferiram para cá e fizeram com que eu também deixasse a minha posição na FENAPAF quase que concomitantemente.
Fui afastado covardemente, em março de 2017, junto comigo outros três sindicalistas que defendiam os jogadores. E o afastamento se deu com a fundamentação de que meu trabalho trazia prejuízos financeiros para a instituição.
Busquei a Justiça e obtive sentença favorável.
O juiz assinalou em seu despacho decisório que “(…) oportuno registrar que o afastamento dos autores se fundou no fato de que os sindicatos por eles presididos estavam fomentando os atletas a reivindicarem judicialmente o pagamento de direito de arena dos clubes de futebol, e do direito de imagem da empresa de jogos eletrônicos.
Observa-se que o sindicato estava simplesmente defendendo os interesses da sua categoria profissional. A FENAPAF argumentou que essa postura dos sindicatos estava contrariando os seus interesses com os clubes de futebol e com a empresa FIFPRO (aqui tive que ser fiel ao texto decisório).
Ora, a FENAPAF deve lutar pela defesa dos interesses dos atletas, e não de empresas e clubes (…)”.
Dá para ver que o judiciário percebeu o verdadeiro sentido da representação que exerço, não importando o que os inimigos queiram dizer sobre mim.
A FENAPAF passou a ser uma vergonha naquele momento para quem teria que representar seus jogadores.
Vergonha que foi desmascarada pela sentença com base em todos os documentos juntados naquele processo.
A decisão em segunda instância, que ratificou a decisão favorável, foi publicada no dia 28 de julho de 2021.
Portanto, até que não houvesse mais nenhuma objeção judicial por parte da FENAPAF, em abril de 2022 foi que voltei.
10. Legado das negociações para os atletas brasileiros
Não há como negar que a experiência adquirida naquele trabalho internacional, com o conhecimento das diferentes culturas, troca de informações, aperfeiçoamento do conhecimento jurídico e tudo mais, trouxe para os jogadores brasileiros bastante benefício.
A negociação que redundou em ter nos regulamentos das competições a possibilidade de perda de pontos pelo não pagamento de salários dos jogadores — embora ainda não totalmente eficaz; a negociação do fair play financeiro, compromisso oficial que a CBF havia assumido comigo em 2014, não se concretizou naquele momento, mas firmou um marco importante; o Sistema de Licenciamento de Clubes, em vigor parcialmente; a constituição da Câmara Nacional de Resolução de Disputas, CNRD, que se efetivou em 2016, foram todas pautas que desenvolvi e negociei.
Negociações de questões que ainda carecem de aperfeiçoamento, mas deixaram suas importantes marcas, que somente não se efetivaram como deveriam, motivadas pela minha saída da FENAPAF, porque não houve continuidade nas negociações. O motivo disso deve ser perguntado ao presidente que me sucedeu.
No período em que estive afastado, a FENAPAF foi desfiliada e expulsa da “outrora instituição”.
11. Retomada da articulação internacional
Desde meu desligamento da “outrora instituição” e das Comissões da FIFA, em agosto de 2016, acompanhei de longe as questões internacionais.
Às vezes, falava com as pessoas que haviam trabalhado comigo nessas ocasiões, que me informavam o que estava ocorrendo no mundo do futebol internacional, inclusive no âmbito político.
Em novembro de 2024, fui contatado por um velho amigo — ele havia sido meu orientador na primeira pós-graduação de Direito Desportivo no Brasil, lá pelos idos de 2003 —, que me disse que membros do sindicato espanhol, AFE, queriam falar comigo.
Fizemos duas reuniões virtuais e trocamos várias informações e impressões.
Em janeiro de 2025, recebi em São Paulo uma delegação composta por membros dos sindicatos espanhol e mexicano para debatermos algumas questões de representação dos jogadores em nível mundial.
Para participar desse encontro, convidei o atual presidente da FENAPAF e sua assessora para que acompanhassem e entendessem o que estaria ocorrendo, mas eles não puderam comparecer.
Continuei trocando informações e impressões com os espanhóis e mexicanos sobre a representação dos jogadores em nível mundial.
No final de maio de 2025, fui informado de que a FIFA, através de seu presidente Gianni Infantino, queria conversar com esse grupo.
Reunião que ocorreu na véspera da abertura do Campeonato Mundial de Clubes, no dia 13 de junho de 2025, em Miami.
Nessa ocasião, juntou-se a nós o representante do sindicato suíço.
Encontro produtivo acerca da necessidade de equilíbrio na relação de trabalho do atleta, com troca de muitas informações e percepções.
12. Conflito entre FIFA e a “outrora instituição”
Enquanto nos organizávamos para essa reunião, foi que soube do problema político que havia entre a FIFA e a “outrora instituição”.
A “outrora instituição”, incomodada com a nossa aproximação da FIFA, em vez de rever sua postura e discutir as várias questões políticas em alto nível, preferia emitir comunicados insultando as pessoas que comandavam a FIFA, questão que ultrapassava os limites institucionais.
A “outrora instituição” exigia da FIFA procedimentos que ela não realizava.
Além disso, se recusou a discutir o “caso Diarra”, importante processo desenvolvido no âmbito do Tribunal de Justiça da União Europeia, e a buscar o equilíbrio entre a condição dos limites que podem ser utilizados quanto à vinculação e a liberdade de trabalho do jogador.
Enquanto a “outrora instituição” se desentendia de maneira grosseira com a FIFA, nós continuávamos a trabalhar em busca de posições que pudessem ir diretamente às questões que mais afetavam a relação jogador-clube, buscando melhor entendimento e soluções.
13. Novo grupo de sindicatos e avanço das negociações
As nossas negociações — desse grupo de sindicatos, São Paulo, Espanha, México e Suíça —, mesmo que ainda não tivéssemos uma instituição oficial para fazê-las, caminhavam tão bem que, em 24 de julho de 2025, a FIFA emitiu um comunicado manifestando quais seriam os pontos que passaríamos a tratar.
Pela primeira vez na história, ela, FIFA, admite a necessidade de trabalhar a pontualidade do pagamento de salário do jogador, algo inimaginável até então.
A nossa instituição, depois denominada AIF, já mostrara a que veio. Além de outras questões, foi uma pauta proposta por São Paulo.
Você pode entender melhor por meio de: “A FIFA e sindicatos de jogadores de todo o mundo se reúnem em Nova York para discutir questões-chave”; fonte: https://inside.fifa.com/organisation/media-releases/player-unions-meeting-new-york-discussing-key-issues
A nossa reunião fez explodir os incômodos da “outrora instituição”, que havia perdido espaço por sua própria culpa e irresponsabilidade.
14. Nota pública da FIFA e questionamentos à FIFPro
A relação entre as instituições, FIFA e “outrora instituição”, chegou a tal ponto de insustentabilidade que, em 25 de julho de 2025, a entidade maior do futebol emitiu um comunicado através de seu site:
Em que expõe:
“(…) A FIFA está profundamente desapontada com o tom cada vez mais divisivo e contraditório adotado pela liderança da FIFPRO, pois essa abordagem demonstra claramente que, em vez de se engajar em um diálogo construtivo, a FIFPRO optou por um caminho de confronto público impulsionado por batalhas artificiais de relações públicas, que nada têm a ver com a proteção do bem-estar dos jogadores profissionais, mas sim com a preservação de suas próprias posições e interesses pessoais. (…)
No sábado, 12 de julho de 2025, após um longo período de esforços infrutíferos para engajar a FIFPRO em um ambiente de diálogo respeitoso e progressivo, a FIFA se reuniu com diversas associações de jogadores em Nova York (EUA) para anunciar e reafirmar medidas concretas e progressistas especificamente elaboradas para proteger o bem-estar físico e mental dos jogadores em todo o mundo. (…)
Em vez de acolher com satisfação esses anúncios sem precedentes que beneficiam jogadores do mundo todo, a FIFPRO respondeu com uma série de ataques pessoais desrespeitosos. Essa abordagem revela muito sobre as prioridades da FIFPRO. Sugere que seus líderes não se importam verdadeiramente com os jogadores, mas sim com disputas políticas internas e com a própria imagem.
As reformas propostas pela FIFA buscam gerar mudanças genuínas para apoiar os jogadores e são muito mais importantes do que preservar a imagem da FIFPRO. Lamentavelmente, a FIFPRO tem se recusado sistematicamente a se engajar de forma construtiva nesses esforços.
Em vez de contribuir de maneira significativa, optou por denúncias teatrais, priorizando manchetes na mídia em detrimento de progressos mensuráveis para os jogadores que alega representar. (…)
Dado o interesse da FIFPRO em abordar questões como a boa governança, talvez devessem considerar a publicação de seus próprios estatutos e a apresentação de demonstrações financeiras anuais transparentes para garantir que o que pregam seja também praticado.
Sejamos claros: não se pode pregar a transparência se se opera de forma opaca. (…)
Portanto, a FIFA convida a FIFPRO a retornar à mesa de negociações assim que cessar a chantagem e retirar as queixas, e assim que publicar seus estatutos, seus relatórios financeiros completos, incluindo todas as suas fontes de renda, os direitos de propriedade intelectual detalhados dos jogadores que alega possuir e o financiamento que uma de suas divisões regionais recebe de certas organizações de futebol, e a lista completa dos membros individuais que alega representar.
O futebol merece união, não divisão. Os jogadores merecem ação, não retórica. A FIFA seguirá em frente ao lado dos jogadores e daqueles que realmente desejam o melhor para o futebol. A FIFPRO deve atender a esse chamado”.
Mantive a denominação da “outrora instituição” por causa do impacto da nota.
Visto o tom da publicação e a pancada dada pela FIFA, pode-se perceber o baixo nível das acusações feitas pela “outrora instituição”, que preferiu a crítica via imprensa ao invés de assumir a responsabilidade de atuar com inteligência, com propostas construtivas em benefício dos jogadores que supostamente representa.
Acusações que até hoje, e passado quase um ano, estamos no fim do mês de maio de 2026, a “outrora instituição” não teve a coragem de enfrentar publicamente.
A FIFA questionou tudo: da governança à forma como são gerados seus recursos; o fato de ela, “outrora instituição”, receber financiamento que uma de suas divisões recebe de uma federação continental; inclusive e principalmente, a sua atuação baseada em interesses pessoais.
Paralelamente, o trabalho de nosso grupo continuava e o número de sindicatos que simpatizavam com as propostas do grupo, do qual São Paulo faz parte, continuava aumentando.
No segundo encontro, esse de 12 de julho de 2025, em Nova York, já eram treze; e depois, em um novo encontro em Rabat, Marrocos, em 08 de novembro de 2025, foram trinta e nove.
15. Nascimento da AIF
Há que se esclarecer que a FIFA, como instituição mundial, para validar qualquer avanço em prol dos jogadores, fruto de uma negociação equilibrada e inteligente, somente pode fazê-lo se tiver como interlocutor uma outra instituição do mesmo porte.
Foi através dessa necessidade que surgiu a ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL DE FUTEBOLISTAS – AIF, com sede e registro em Madri, Espanha.
A AIF nasce e se legaliza sob a fiscalização e supervisão do governo espanhol e da Comunidade Europeia.
Repetindo o que já foi dito, os seus dirigentes carregam consigo as responsabilidades pessoais de atuação, todas, igual a um sindicato no Brasil.
Fica claro, ao se ter contato com a publicação de todos os pontos levantados na comunicação da FIFA, que o desgaste com a “outrora instituição” vinha ocorrendo há bastante tempo.
A pancada foi forte.
A AIF surge, dessa maneira, porque os jogadores careciam de representação mundial, precisavam de uma instituição que pudesse falar em nome deles.
Fica claro também que a “outrora instituição”, como diz a publicação da FIFA e não contestada até hoje, “(…) optou por um caminho de confronto público impulsionado por batalhas artificiais de relações públicas, que nada têm a ver com a proteção do bem-estar dos jogadores profissionais, mas sim com a preservação de suas próprias posições e interesses pessoais”.
Isso mostra que eu estava certo em minha renúncia, porque a “outrora instituição” já vinha se deteriorando e se distanciando de seu dever de função, que é o de representar institucionalmente os jogadores, função que estava sendo trocada pelos interesses pessoais instalados naquela instituição.
Um dia ainda vou escrever tudo o que vivi lá; de como são tratadas as pessoas dos sindicatos oriundos de países sul e centro-americanos, asiáticos e africanos e outras questões que presenciei naquela representação.
16. Aproximação da FENAPAF com a FIFPro
E enquanto os sindicatos iam se organizando na Espanha para constituir um sindicato mundial a ponto de resgatar a representação dos jogadores, por aqui dois membros da FENAPAF — um diretor e o outro presidente de um dos sindicatos que a compõem — entraram em contato com a FIFPro para ver a possibilidade de voltar.
A FIFA escancarou a cultura da “outrora instituição”. Então, pode-se imaginar, por parte desses indivíduos, o motivo dessa aproximação.
Isso ocorreu em meados de setembro de 2025 e a “outrora instituição” não mostrou interesse nessa volta.
O interesse somente ocorreu quando ela, “outrora instituição”, soube da nossa movimentação na constituição da AIF, que na Europa já estava sendo divulgada.
Bem, no dia 23 de abril de 2026, quando fizemos o anúncio oficial da AIF em um evento em Madri, a “outrora instituição” solta um comunicado aceitando a FENAPAF como uma de seus membros, mas como membro observador.
Membro observador não tem nem voz nem voto, só observa. Ou seja, relegaram a FENAPAF a um décimo plano.
Há que se afirmar que o presidente da FENAPAF foi vendido nessa história.
Eu, quando soube da intenção, lá em setembro de 2025, fiz várias colocações para tentar entender de que forma a FENAPAF seria admitida.
Os dois indivíduos que estavam à frente das negociações para a volta não gostaram nem um pouco do meu questionamento.
Questionamento que carregava a necessidade do prestígio que a FENAPAF, que já havia sido representada na vice-presidência mundial e presidência da Divisão Américas, merecia.
Mas, para esses indivíduos, era uma questão de interesse pessoal.
Como eu conhecia e dominava os procedimentos da “outrora instituição”, mesmo afastado esse tempo todo, queria entender se não se tratava de uma aproximação somente para que a FENAPAF servisse de manobra política, para ela tentar dividir a representação aqui no Brasil.
Bingo!
A jogada da “outrora instituição” ocorreu exatamente assim e a FENAPAF estava mesmo caindo no conto do vigário, no conto do bilhete premiado.
17. Perda de protagonismo da “outrora instituição”
Vale lembrar que, numa das consequências do caso Bosman, a FIFA é obrigada a compor suas Comissões de forma paritária, membros representantes de clubes e jogadores.
E era a “outrora instituição” que indicava pelos jogadores, questão que poderia ser de interesse da FENAPAF em ter um membro brasileiro atuando nas Comissões.
Agora, com todo esse desgaste, dificilmente a “outrora instituição” será a instituição a indicar qualquer membro.
Também não vai mais sentar na mesa para negociar com a FIFA.
Ou seja, a “outrora instituição” perdeu seu objetivo.
Sem poder negociar com a FIFA, o que mais lhe resta a não ser tentar criar conflitos, mesmo que seja entre os representantes dos jogadores?
Um sinal importante disso diz respeito ao que está acontecendo com o sindicato chileno.
Seu anterior presidente renunciou porque foi trabalhar como secretário-geral da “outrora instituição”, claro, por seu próprio interesse, só que a atual diretoria já comunicou seu interesse em se juntar à AIF.
18. Evento da FENAPAF e alerta sobre o retorno
Um outro fato ocorrido que demonstra a falta de equilíbrio de como a “outrora instituição” conduz, com desequilíbrio e equívocos, suas relações institucionais, além das pessoais, aconteceu no dia 06 de maio de 2026.
A FENAPAF organizou um evento para dar visibilidade a um de seus projetos, o de integridade, e aproveitou a ocasião para comunicar seu possível retorno à “outrora instituição”.
Até aquele momento, a FENAPAF, mesmo que eu tivesse alertado, não tinha certeza de que estava sendo enganada, de que o conto do vigário estava em andamento.
Somente depois de entender o que representava o retorno como membro observador, só figuração, membro sem nenhuma importância, foi que o presidente entendeu a situação.
E fiz todos os alertas de tudo o que envolvia a proposta da volta: como a situação política internacional da “outrora instituição”; o fato de a “outrora instituição” estar sendo financiada por uma confederação continental por interesses pessoais; o fato de a FIFA estar batendo pesado quanto à falta de transparência na governança da “outrora instituição”.
Alertei para que a FENAPAF pudesse se resguardar da vergonha de estar junto a uma instituição que não representa os jogadores em nível mundial como alardeia.
19. Tentativa de afastar o autor do evento
Pois bem, para aquele evento, eu, como conselheiro que sou, fui preparado para a participação.
Porém, para meu espanto, os diretores da “outrora instituição” que vieram participar do evento, ao saber da minha possível presença, ameaçaram deixar o encontro e o país.
Nada mais covarde e risível.
Situação essa que fez com que o presidente da FENAPAF, junto com outros membros, esses ponderados e fiéis ao trabalho em defesa da categoria, fosse ao hotel onde me encontrava hospedado me pedir para não participar, pois o evento contava com o convite feito a outras autoridades importantes do relacionamento da instituição nacional.
Eu, como não queria criar constrangimento ao atual presidente, simplesmente me retirei e voltei para São Paulo.
Houve até um dirigente da “outrora instituição” propondo que pusessem seguranças para me impedir, caso eu insistisse em comparecer.
Atitude que demonstra o nível de covardia que permeia a condução deles e salienta ainda mais o baixo nível daquela que outrora foi a representante dos jogadores em nível mundial.
Eu disse ao presidente da FENAPAF e aos outros membros que o acompanharam na missão de me dissuadir daquele comparecimento que a “outrora instituição” não me queria no evento porque não conseguiriam mentir e emitir quaisquer distorções na minha frente.
Ou seja, não conseguiriam completar o embuste e finalizar o golpe que culminou no conto do vigário em que a FENAPAF se deixou cair.
E não poderiam, porque conheço cada uma daquelas pessoas.
O principal, o presidente atual da “outrora instituição”, nunca teve voz e importância enquanto eu lá estava, por isso não queria minha presença.
Mais, conheço cada caráter que ali poderia estar e posso assegurar que não aconselho a ninguém fazer negócio, a comprar qualquer coisa deles.
Lembra daquela história da caneta que some a tinta?
É a que eles usam.
Não se pode confiar nem naquilo que assinam.
20. Dilema da FENAPAF e posição sobre a AIF
Agora, a FENAPAF se colocou nesse dilema.
Ou aceita o conto do vigário e se mantém como marionete e massa de manobra da “outrora instituição”, ou acorda e se junta a uma instituição que realmente terá a possibilidade de negociar e estabelecer melhores condições aos jogadores de futebol de todo o mundo, principalmente os do Brasil.
Outra reiteração e esclarecimento diz respeito ao fato de que a instituição representante de atletas e fundadora da ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL DE FUTEBOLISTAS – AIF, que foi convidada essencialmente a essa participação, foi o SINDICATO DE ATLETAS SP, não a FENAPAF, que será bem-vinda caso queira trabalhar em prol dos jogadores de futebol.
Outro fato que deve ser lembrado foi que, desde o início das conversas que culminaram na criação da AIF, a FENAPAF estava convidada a participar.
Outro fato importante lembra que o processo de volta à “outrora instituição” foi conduzido por dois membros da FENAPAF cujos interesses eram somente pessoais, por isso fizeram tanta força para tanto.
Como a FIFA mesmo comunicou, e até agora não refutado, essa aproximação tem por base “a preservação de suas próprias posições e interesses pessoais”.
Interesses pessoais que os ligou.
Gosto da frase que posiciona “que gambá só cheira gambá”, que demonstra que gente que pensa e age igual é que acaba se juntando.
21. Considerações finais
Trouxe aqui todo o contexto para que o leitor entenda por que a FENAPAF caiu no conto do vigário e virou massa de manobra política ao se juntar a uma instituição que perdeu a credibilidade e seu protagonismo.
O que é lamentável, porque não foi esse o caminho que, como fundador, imaginava que a instituição trilharia.
Talvez seja essa mesmo a grande diferença.
Quem veio depois, bem depois, e pegou tudo pronto, não valoriza tudo o que foi feito, não valoriza o suor e empenho daqueles que vieram antes.
Pobre mentalidade brasileira.
Apesar dessa gente interesseira, eu não desisto, nunca, e continuo com o propósito de fazer com que o meu trabalho possa levar benefícios para aqueles que sequer imaginam que eu existo, como aprendi na minha caminhada e tenho feito até agora.
São Paulo, 01 de junho de 2026.
Rinaldo José Zaffani Martorelli